
Querida Escola Nossa Senhora da Providência,
Queridas Irmãs, Professoras e todos que fizeram parte da minha história,
Escrevo esta carta com o coração cheio de gratidão, emoção, saudade e reconhecimento. Meu nome é Jussara, tenho hoje 57 anos, e fui aluna desta escola da 1ª à 8ª série. Carrego comigo, até hoje, marcas profundas — e lindas — do acolhimento que recebi dentro dessas paredes.
Minha infância foi marcada por uma mãe maravilhosa, forte e amorosa, dois irmãos companheiros, e um pai que, apesar de bom, era alcoólatra e não conseguia controlar seu lado violento quando bebia. Em meio a esse contexto difícil, a escola foi muito mais do que um lugar de ensino: foi refúgio, proteção, segurança e amor.
Foi onde vivi dias seguros, leves e verdadeiramente felizes.
Jamais esquecerei as missas da escola, os momentos de silêncio, fé e reflexão, e as canções do Padre Zezinho, especialmente aquela sobre a família, que tantas vezes ouvi sentada nos bancos da igreja, sem imaginar o quanto aquelas palavras me acompanhariam por toda a vida. Anos depois, outra música marcaria de forma profunda a minha história: a canção que embalou a despedida da minha mãe. Hoje, tanto meu pai quanto minha mãe já não estão mais entre nós, mas vivem eternamente dentro de mim.
Nunca esquecerei a Irmã Lorines. Quando percebia que eu estava triste, me levava até a capela. Ali aprendi, em silêncio, a confiar, a ter fé e a encontrar paz.
Também jamais esquecerei a Irmã Deolinda, que nos ensinava muito mais do que conteúdos: ela nos ensinava sobre empatia, ética, respeito e humanidade. Valores que carrego comigo até hoje.
Lembro com enorme carinho da minha professora Edla e de um dos momentos mais marcantes da minha infância: quando vendi 20 cupons de 1 real e ganhei meus primeiros livros de bolso. Eram quatro livrinhos azuis, com as histórias de Peter Pan, Branca de Neve, Os Três Porquinhos e Cinderela. Aqueles livros acenderam em mim algo que jamais se apagou: a esperança. Foi ali que comecei a sonhar com um futuro diferente.
Lembro também, com um misto de emoção e ternura, da professora Joana. Ela sempre escrevia meu nome na “lista negra” e dizia que iria chamar a minha mãe… mas nunca chamava. Hoje eu entendo: ela sabia que a escola era o único lugar seguro que eu tinha para brincar. Na escola, eu sentia que estava na casa que eu um dia sonharia em ter.
Também carrego na memória os longos caminhos até a escola. Todos os dias eu caminhava da Vila Kennedy até a Escola Nossa Senhora da Providência. Nos dias de frio intenso e de chuva, muitas vezes a ponte da Rua Borges de Medeiros caía, e era preciso dar a volta pela Vila Carolina para conseguir chegar. Lembro do meu querido irmão Jorge Brito, que já partiu, e que me levava apressado para não perder a aula. Ele também vive em minha memória com amor eterno.
Havia ainda uma amiga que morava muito longe e sempre chegava atrasada. Com carinho, a apelidamos de “o trem da fronteira”, porque parecia atravessar o mundo para chegar até a escola. Hoje entendo que todas nós fazíamos verdadeiras jornadas — físicas e emocionais — movidas pelo desejo de estudar, crescer e vencer.
Após concluir a universidade, em 1990, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), segui minha caminhada profissional por 16 anos em Rondônia. Foi outro lugar que me ensinou muito, que fortaleceu minha vocação e que deixou marcas profundas por meio de amizades maravilhosas que levo no coração até hoje.
Hoje, a vida me levou ainda mais longe. Morei em Dubai por 8 anos e vivo em Doha, no Qatar, há 11 anos. Sou mãe de três filhas — Natasha, Gabriela e Julia — e avó de um neto lindo e amoroso chamado Yousef.
Atualmente, sou enfermeira especialista em Saúde Pública, doutora em Saúde Pública, consultora em amamentação, e tive a honra de abrir a primeira clínica liderada por enfermeira voltada à saúde mental de gestantes. Tudo o que construí na vida tem raízes profundas no acolhimento, no amor, nos valores e na esperança que aprendi dentro desta escola.
Agradeço profundamente a Deus por hoje poder dar às minhas filhas um lugar seguro para voltar, descansar e se sentir amadas — o lar que um dia sonhei ainda criança.
Agradeço também a Deus por ter colocado ao meu lado dois pais maravilhosos para minhas filhas: meu primeiro marido, Osvaldo Pittaluga, grande pai da Natasha; e meu querido marido Juan Ponte, que faleceu em 2024, deixando comigo duas filhas lindas e amorosas, que hoje são minha responsabilidade, meu amor e minha missão.
Hoje escrevo esta carta também com uma dor imensa no coração, pois minha querida amiga Angelita Chagas, também aluna desta escola, companheira de caminhadas, de tantas brincadeiras, vizinha da Vila Kennedy, encontra-se neste momento no hospital, em Santa Maria, em uma situação muito difícil. Angelita foi uma das minhas melhores amigas, junto com tantas outras que não ouso citar todas para não correr o risco de esquecer alguém — como Liliana, Medianeira, Ivana, Joana, e tantas outras que fizeram da minha infância um tempo de amizade verdadeira, riso, partilha e amor.
A Escola Nossa Senhora da Providência não acolheu apenas a mim. Acolheu muitas famílias de baixa renda que, como a minha, não tinham condições de colocar seus filhos em escolas caras, mas que encontraram ali dignidade, educação de qualidade e humanidade. Essa escola formou crianças e jovens para lutar pela vida sem jamais perder o valor humano.
Por tudo isso, deixo aqui minha eterna gratidão. Que Deus abençoe cada irmã, cada professora, cada colaborador que fez parte dessa história. Vocês não ensinaram apenas conteúdos — vocês salvaram sonhos, protegeram infâncias e transformaram destinos. Inclusive o meu.
Com carinho, respeito, saudade, fé e eterna gratidão,
Jussara
Ex-aluna da Escola Nossa Senhora da Providência - Santa Maria – RS
Doha, Qatar